Após mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor no dia 1º de maio de forma provisória, mas sob uma forte expectativa de ganhos no comércio entre os blocos e de diversificação nas relações comerciais dos países, em um momento de forte turbulência global.
— É um arcabouço que combina previsibilidade e integração. E isso em um momento em que o ambiente geral das relações econômicas internacionais está, no mínimo, bem conturbado — disse o vice-diretor do departamento de Comércio e Segurança Econômica da União Europeia, Denis Redonnet, em debate na Hannover Messe no estande do bloco europeu.
Ele reconhece a demora na negociação entre os dois blocos, mas classifica o resultado alcançado como “algo realmente importante” e uma “parceria integrada e profunda entre as duas grandes regiões”, especialmente no atual cenário global.
Redonnet, que é ex-conselheiro de Pascal Lamy, comissário de Comércio da União Europeia responsável pelas negociações do acordo entre o fim dos anos 90 e o início dos anos 2000, considera que o novo arcabouço “realmente transforma nossa relação em uma relação genuinamente preferencial, algo que não tínhamos antes”.
— Isso envolve comércio, investimento, exportações e importações — afirmou.
O embaixador do Brasil para a UE, Pedro Miguel da Costa e Silva, também se mostrou um entusiasta das possibilidades das novas bases do relacionamento entre os dois blocos. Segundo ele, a série de regras criadas vai facilitar o comércio e a vida dos que querem promover negócios entre os países-membros:
— Éramos um dos poucos parceiros tradicionais da União Europeia que não tínhamos um acordo comercial. De alguma forma, com esse acordo, compensamos o que não tínhamos antes. Podemos competir em condições de mais igualdade com outros parceiros da União Europeia.”
Além desses ganhos mais imediatos, apontou Costa e Silva, é evidente também a mensagem sobre o desejo de cooperação.
— Estamos mandando um sinal político muito forte e claro ao mundo sobre nossa preferência pelo diálogo, pela cooperação e pelo trabalho conjunto — disse.
O aspecto estratégico do ponto de vista geopolítico também foi ressaltado por Pablo Fava, presidente da Siemens no Brasil.
— Faz todo o sentido para os dois lados, para os dois polos. A Europa precisa muito de fontes de recursos naturais, precisa muito de gente nova. É um mercado para a Europa muito grande. E é um movimento geopolítico, claramente, hoje que existe essa polarização tão grande, a Europa fica num ponto médio, então precisa de alguma forma buscar uma diversificação— disse.
Esse movimento abre oportunidades para a América do Sul, segundo empresas. Para Fava, há uma complementaridade entre o mercado europeu e o mercado latino-americano.
— É um momento ideal para o Brasil alavancar seu crescimento, porque o Brasil tem tanto petróleo, como energias renováveis. E tem todo o potencial para apoiar outros países na descarbonização da sua própria matriz industrial— disse Barbara Konner, vice-presidente executiva da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha.
Espaço para crescimento
Para ela, o mercado brasileiro tem espaço para crescer para além da exportação de matérias-primas. Na feira de Hanôver, o Brasil se apresentou como um parceiro tecnológico, um país industrial que tem muitas tecnologias para resolver desafios e problemas para o mundo inteiro, disse.
Um estudo da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) apontou ao menos 500 oportunidades de exportação do Mercosul para a UE associadas à redução de tarifas, com um valor estimado em US$ 43,9 bilhões. Os setores destacados foram os de máquinas e equipamentos de transporte.
Para a Weg, indústria brasileira com presença global, a abertura dos mercados não representa uma preocupação, no caso da concorrência do mercado local.
— Estamos preparados para competir na Europa, com o mercado chinês ou com qualquer outro mercado. Nesse sentido, não vemos isso como um risco— afirmou Wilmar Henning, diretor da companhia na Alemanha.
Para parte dos setores, principalmente na indústria, o acordo entre os blocos previu a implementação gradual dos cortes tarifários, o que deverá levar a um impacto escalonado.
É o caso do setor automotivo, em que a transição ao novo modelo levará até 15 anos.
— Na indústria automobilística vai impactar positivamente a abertura dos mercados, mas tem um timing de 15 anos, vai ser pouco a pouco. Nos primeiros anos temos uma cota de 50 mil carros, isso não é muita coisa — apontou Alexander Seitz, presidente-executivo da Volkswagen na América do Sul. —Vamos ter um efeito positivo, mas vai ser gradualmente. Mas esse efeito vai acontecer.
O acordo UE-Mercosul entrou em vigor de forma provisória devido a pendências nas aprovações do bloco europeu, que ainda não aprovou o acordo completo — este deverá incluir outros temas, como coordenação em questões ambientais, de direitos humanos, imigração, digitalização, entre outros.
Mesmo a parte comercial da parceria, que entrou em vigor em maio, ainda é alvo de questionamento pelo Parlamento Europeu, que entrou no Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) colocando em xeque a validade do acordo.
Na feira realizada na Alemanha, um país favorável à parceria comercial, os entraves foram minimizados por autoridades e representantes empresariais. “Não há oposição contra a entrada em vigor provisória do acordo. (...) Essa questão será tratada em um tempo justo pela corte, o Parlamento votará pela aprovação e vamos ratificar o acordo, o que leva, em média de três a quatro meses", disse o eurodeputado alemão, Bernd Lange, em um painel sobre o tema em Hanôver.
Konner também afirmou que não vê qualquer risco de o acordo se reverter, que as pendências são “tecnicismos” e que, mesmo que a discussão sobre o acordo final se estenda, isso não compromete o avanço da parte comercial da parceria.
— Realmente ambos os lados se comprometeram, e o acordo está negociado. O questionamento judicial Não coloca em risco a implementação verdadeira do acordo, a parte comercial. E esta pode ser aplicada independentemente da aprovação final.
Fonte: O Globo